terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Queridos 15 anos

Era uma festa linda, seus 15 anos chegará e Carla mal acreditava, era tão mágico, seus pais prepararam tudo para o baile, o vestido mais lindo que poderia existir, azul com brilhantes por todas as partes, um bolo de camadas tão lindo como a decoração do salão, nada poderia dar errado, ela que sempre foi a filha mais querida e responsável, das melhores notas, melhores atividades acadêmicas, melhor relacionamento familiar, unica coisa que para os pais estragava era o namoro, mas nem isso deixava a boa reputação dela para baixo.
Namorava um garoto que todo o dia lhe fazia juras de amor, Renato, era da mesma escola, de séria igual mais salas diferentes, todo intervalo ele estava as 10:15 em ponto esperando ela sair da sala, para irem os dois de mãos dadas para a cantina, sempre que saiam da escola ele deixava ela em casa e ia pra sua casa, depois voltava e ficava a tarde toda sentado ao lado da cama dela, vendo-a dormir e no mínimo pensando em como se sentia bem com ela.
Não existia casal mais bonito entre os amigos e na própria escola, em sites de redes sociais, sempre os colocavam como o casal do ano, toda noite as 21:30 ele ligava pra ela, pra desejar boa noite e dizer o quanto ela era importante e o quanto ele precisava dormir tendo a certeza de que teria ela no outro dia, os presentes dele eram os mais sensacionais, de caixas de chocolate importado a declarações públicas por todos os cantos, até os pais dela que mesmo um pouco contra, admitiam o quão era grande o sentimento do garoto.
O baile em si foi perfeito, a valsa encantadora, logicamente quem dançaria com ela seria ele e ele estava lá, com seu terno e sua rosa com uma aliança amarrada na boca, era uma surpresa que ninguém imaginaria que poderia acontecer, faziam um ano de namoro na próxima semana ao evento, mas pela excitação e importância da festa, achou melhor dar o presente de um ano de namoro naquele baile mesmo, com todo aquele público, com toda a familia...
Foi surpreendende, ele pediu ao dj para que antes de tocar a valsa tocasse a música do casal, foi ao centro do salão e pediu para que ela o acompanhasse, olhou para ela, ignorou todas as pessoas ao redor e falou com simples e pequenas palavras o quanto aquilo se tornou importante para ele, e colocou a aliança no dedo dela, Carla ficou tão besta e imóvel que depois de muitos minutos parou de fintá-lo com os olhos e começou a chorar, chorava de uma forma que ninguém poderia conter, aquilo a realizará, e até então tudo estava perfeito, seu ano escolar, sua familia, seus amigos, seu baile, SEU NAMORADO, legitimo namorado que lhe mostrava amar a cada dia mais, tinha uma plena certeza que não iria perdê-lo e que ele era tudo que ela poderia sonhar em ter na vida. Dançaram a valsa e todos ovacionaram, não existiria momento mais perfeito que aquele, e até mesmo os pais dela concordaram com isto.
Acabou o baile e começou a festa, onde o dj esqueceu todo tipo de formalidade e soltou o som, os convidados que se controlavam tanto na bebida, estavam alucinados e os garotos praticamente sem camisa, as garotas preferiram trocar o salto por uma rasteirinha, outras simplesmente tiraram o sapato e enfrentaram o chão frio, com o jogo de luz, a música rolando, até mesmo a família da pequena e grande Carla entraram na festa e até então, estava tudo perfeito.
Carla estava muito realizada e parou um pouco na porta do salão para respirar e até mesmo pensar um pouco, estavam todos dançando, sem exceção, até mesmo sua avó que deveria já estar em casa por conta dos problemas de saúde se deixou levar pela febre dos jovens, estavam todos lá menos Renato, Carla observou que Renato não se encontrava em lugar algum daquele salão, e ela precisa estar com ele, ainda não acreditava naquela declaração maravilhosa de amor, ela sabia que ele tinha bebido muito, e que provavelmente estaria jogado em algum lugar vomitando toda bebida e comida que consumia, logo foi procurá-lo, pois subitamente lhe causou uma preocupação pelo amado, procurou ele em todos os cantos e não conseguiu encontrá-lo, ficou mais preocupada, aonde estaria ele?
Estava cansada de procurar e foi falar com seu pai que lhe pediu para ir ao carro pegar uma sandália de salto baixo para sua mãe, ela foi caminhando em direção ao estacionamento, que não ficava muito longe dali, já não escutava mais com tanta intensidade o grave do som do salão e isso já era um alivio, eram 3:30 da manhã e ela estava definitivamente morta, a unica coisa que realmente queria era chegar em casa e dormir, pegou as sandálias no carro e ia voltando ao salão quando deixou cair as chaves do carro e foi pega-las, quando se levantou do chão se deparou com uma cena que nunca imaginaria ver em sua vida, muito menos em sua festa de aniversário de 15 anos, perto do carro de seu pai, à uns sete metros, havia uma árvore gigante onde muitos carros estavam estacionados, poderia dizer que era um ponto estratégico, caso ela não tivesse deixado as chaves cair, não perceberia que tinha duas pessoas abraçadas lá e isso a assustou, quem poderia estar ali já que não senti falta de ninguém na festa a não ser do Renato...
Ela não quis acreditar que era seu namorado que estava ali, chegou mais perto, mas de uma forma que as duas pessoas não pudessem ver, andou um pouco mais, atravessou três carros, encostou em um e pelo outro lado do vidro os avistou, era seu NAMORADO e sua PRIMA, algo revoltante! Como poderia aquilo? eles estavam encostados na árvore, ela com as mãos sobre o ombro dele e ele com as mãos passeando pelo corpo dela, ela o beijando arduamente e ele sufocando-a, aquilo enojou Carla que ficou pasma e sem reação, era inacreditável aquela cena e ela não conseguia pensar no que fazer, poderia muito bem ir lá e acabar com toda sedução, jogar as alianças na cara dele e nunca mais o olhar na cara, poderia ignorar, ir para o salão e sair ficando com todos garotos que visse na frente, poderia simplesmente ir para casa e nunca mais olhar para ele, ela tinha bilhões de atitudes possíveis a serem tomadas, ela tinha todo direito de matá-lo, ela nada fez.
Saiu aos poucos dali de uma forma que os dois "amantes" não pudessem percebe-la, foi para longe daquele local, para longe do salão de festas, procurou um lugar distante e escuro para lhe acolher, ficou ali sentada no banco da portaria do condomínio onde estava acontecendo seu aniversário, com a sandália da mãe nas mãos, sentada em um banco olhando para o nada, o que poderia fazer, o que fazer em uma situação dessas, o garoto que dizia amá-la e que lhe dará uma aliança na mesma noite é encontrado aos beijos com sua PRIMA, que espécie de sangue é esse, que traí sua própria genética e supostamente sua própria amiga?
O porteiro foi tentar entender o motivo daquela pequena criança se encontrar sentada no banco da portaria, com aquele lindo vestido e sandálias na mão.
-Houve alguma coisa garotinha?
-Nada que o senhor possa resolver...
-Quer que eu te leve para sua festa?
-Não, quero apenas que o senhor esqueça que estou aqui e finja que não existo.
Era isso que ela queria naquele momento, na verdade era isso que ela queria pro resto da vida, uma festa onde tudo ocorria bem e estava completamente realizada se tornou em um show de horrores, onde a atração principal era o macaco do seu namorado e a peste da sua prima, era assim que se sentia, traída por ambas as partes, tudo isso foi por causa da bebida?
Sim ele bebeu demais, bebeu mais do que devia sem dúvidas todos perceberam mas ignoraram até por que, era aniversário da namorada dele, ele saberia se controlar...
O que Carla poderia pensar se não na decepção que se passava em seu coração, ela não aguentava imaginar aquela cena de novo e por mais que não quisesse era essa cena que passava em sua mente a todo momento, por que ele fez isso com ela, por causa da bebida, mas a bebida conseguiria fazer todo amor que ele dizia existir ir embora assim? E sua prima, por que se colocar em um papel tão ridículo, não seria inveja já que foi ela que juntou os dois, por que as duas pessoas que era mais importantes que qualquer outra para Carla acabaram de fazer isso?
Será que eles sempre fizeram isso, sempre mentiram para ela, será que toda vida foi assim, desde do começo do namoro, ele fingia estar agradando a pessoa que "amava", enquanto a outra sorria pelas costas por saber que ele recorria a ela? Terrível imaginar que os dois se sujeitariam a algo do tipo, terrível imaginar que os dois estavam debaixo daquela árvore aos beijos como se fossem namorados, um casal apaixonado, enamorado.
Ela ainda não sabia o que fazer, só sabia que faltavam dez pras cinco e que ficará muito tempo ausente de sua festa, sua mãe precisava de sua sandália e ela precisava aparecer, dá um sinal de vida, mesmo que tudo que ela mais precisasse fosse fugir, ela precisava encarar aquelas pessoas que mal imaginavam o que viu, ela estava voltando para a festa, voltando e pensando em o que poderia fazer caso visse os dois de novo juntos, ou caso ele fosse falar com ela, já imaginou ele tentasse beija-la, o que ela faria? Estava tão perdida que só conseguia chorar na verdade foi isso que mais fez em todo esse momento que passou sozinha, chorou e borrou a maquiagem, por onde ela passava os carros passavam buzinando e acenando, alguns gritavam "viva os 15 anos, viva a Carla", outros perguntavam aonde ela estava, e outros passavam direto, completamente bêbados, esquecendo totalmente o caminho de casa.
Ela chegou no estacionamento do baile, viu que estava ficando claro e que já não tinha quase ninguém, viu também que o carro do pai de Renato já estava lá, provavelmente para buscá-lo, ela queria muito que ele fosse embora sem despedir-se dela, ela queria que ele agora do nada sumisse da sua vida, pois talvez assim fosse melhor para ela, Carla precisava se desviar dele, já que seu coração se sentia um caco e em pedaços, ela não queria reencontra-lo novamente e perceber que iria morrer, que preferiria a morte do que aquele momento, ela estava mal e chocada e a unica coisa que queria era estar em casa, longe daquilo tudo...
Chegou ao salão e percebeu que todos estavam preocupados, ela notou que sua prima já tinha ido, o que a fez ficar mais aliviada, pelo menos a cara dela ela evitaria de ter visto, seu pai logo se aproximou brigando e gritando muito com ela, ela estava tão chocada que ficou calada e ao mesmo tempo surda, mal escutada os berros do pai, de longe ela viu Renato, que ficou a observando, provavelmente imaginando se ela tivesse visto a cena, para ter sumido assim, de fato viu, mas o que fazer?
Os dois ficaram se olhando por mais de minutos e cada vez mais que ela insistia em finta-lo, suas lágrimas caiam e a cena reaparecia em sua mente, na verdade em sua frente, como um flash back, era agonizante ver aquilo e mais agonizante ainda senti-lo na sua frente, vê-lo e perceber que aquilo era verdade e que realmente aconteceu, ele olhava para ela com uma vontade imensa de ir lá e abraça-la, de ignorar as tolices que o pai dela estava dizendo e pedir desculpas, ele sabia que estava errado, provavelmente nesse momento já estava sem efeito do álcool e a unica coisa que poderia lembrar é a merda que fez e o quanto se arrependeu.
O pai de Carla depois de tanto falar conseguiu se calar, pegou a sandália das mãos dela e a mandou se despedir do resto dos convidados, estavam indo embora e agora o coração dela começou a disparar, o que fazer, ele a traiu, tinha mais umas 15 pessoas ali, mas nenhuma importava tanto quanto ele e na hora de se despedir dele, nem mesmo ela sabia como seria, se ela comentaria sobre o que viu ou simplesmente fingiria ter acontecido nada. Se despediu dos tios, de três amigas que ficará, da mãe de sua prima, e por fim ficou frente a frente com ele, os dois calados pensando no que aconteceu, no fundo ele sabia que ela sabia, ele sabia a merda que fez e ele sabia que nada poderia reparar aquele erro, ela sabia o quanto precisava dele ainda e o quanto era forte aquilo que sentia, ela se agonizava por dentro por querer ceder seu orgulho, por querer fingir que nada aconteceu e pular em seus braços, era exatamente isso que ela queria, voltar ao momento em que ele lhe deu a aliança e falar "não desgruda de mim no baile ok?", mas não foi isso que ela falou e não foi isso que aconteceu, ela deu um tchau seco para ele, e era o mínimo que ela poderia fazer, ele consentiu ao tratamento, agora ela tinha certeza que ele sabia e ele nada fez? ele tinha que ter feito alguma coisa, ele realmente teria que ter feito alguma coisa, pelo menos falado alguma coisa, ela queria apenas um eu te amo e estava pronta para tentar esquecer a fatalidade daquela noite, ninguém sabia o que ocorrerá, mal ela sabia se ele sabia que ela sabia!
Ela se despediu friamente e ele deu um beijo em sua testa, O QUE SIGNIFICAVA AQUILO? Um beijo na testa era um desisto de você agora estou com sua prima? cada atitude dele deixava uma dúvida cruel em sua cabeça e ela realmente não sabia o que fazer, passou a se sentir mal por ter sido fria com ele, mas calma aí, quem errou foi ele, ele que a traiu, ele que deveria se sentir culpado NÃO ELA!
Ela foi embora, virou as costas e tentou olhar para trás duas vezes, sua mãe pegou em suas mãos e apressou o passo, seu pai já estava no carro esperando e ele estava lá parado olhando sua "amada" ir embora, ele fez a merda e não quis concertar, talvez ele não soubesse como consertar, talvez ele não imaginasse que ela soubesse da merda, talvez ele simplesmente fingiu ser o que era e cansou de fingir amar...
Ela se foi, ele ficou e depois daquela noite, ela não conseguiria mais dormir e ele passou a ser a dúvida mais cruel que poderia existir em sua mente...
Ele nada fez, nada fez...
(Mayra M.)

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