Fazia muito tempo que eu não saía com a minha familia, como também fazia muito tempo que eu não ia ao centro, cheguei em casa hoje totalmente exausta pensando apenas em dormir, entrei na internet para trocar algumas palavras com alguns amigos e logo iria desligar o computador e procurar um canto para deitar.
-Em mãe, eu vou no meu carro, você vai no seu ou no da Roberta?
-Vocês vão aonde?
-Vou assim mesmo tá, faz muito frio lá?
-VOCÊS VÃO AONDE?
-Haa no centro do João, quer ir com a gente?
A resposta mais obvia e inteligente desse começo de noite seria NÃO OBRIGADA vou tomar um banho e ir dormir, mas preferi não responder e me deixar guiar uma dúvida, continuei na internet procurando algo para me distrair, mas realmente estava pensando em "por que não ir?"
Antes de continuar vou deixar algumas coisas mais esclarecidas sobre o local para onde fomos, é um centro espírita candoblecista, lá a festa era de boiadeiros, espíritos que encarnam no médium e bebem, fumam, conversam, dançam e se manifestam, muitas vezes vão apenas para deixar sua boa energia e muitas outras vão para conversar e dar consulta, a segunda opção raramente acontece. É uma festa em especial para eles dançarem, o traje é igualmente de um boiadeiro com chapéu de couro e chicote, e as cantigas que cantam são referentes a estes também.
"A que saudade me dá ôô
do meu pé de serra,
do meu cavalo alazão
da minha vaca amarela."
Bom chegamos lá sentamos e esperamos a festa começar, é uma espécie de salão aonde as pessoas dançam em um círculo, tinham três tambores eu estava desde da hora que entrei no carro até aquele exato momento me perguntando o que estava fazendo ali, é eu precisava muito deitar, ou ficar na internet, precisava ler um livro, qualquer coisa menos ver aquelas pessoas dançando e cantando com sua respectiva fé. FÉ, cheguei no ponto que queria!
Passado algum tempo naquele lugar os tambores começaram a tocar e as pessoas a dançarem em círculo e cantando também, eu estava cansada de ver aquilo, estava cantando também mas pensando MESMO na minha cama.Por um instinto olhei para trás e vi ali três pessoas ajudando uma outra a caminhar, logo pensei "deve estar tonta ou deve ter caído", total engano meu e quando ela se aproximou vi que era cega o que me deixou meio abismada já que era cega e não poderia ver nada que se ocorria ali. Ela foi sentar-se em uma distância onde não percebeu que eu a observei todo o tempo, quando se sentou ficou quieta e as pessoas estavam lhe auxiliando para se sentir melhor, ela estava muito perto das pessoas que estavam dançando e logo chegaram mais pessoas para lhe servir o que fosse preciso, achei digno e humano toda aquela atitude mas mesmo assim não entendia o motivo de ela estar lá, ELA É CEGA, o que aproveitaria? Resolvi ignorar a existência dela ali e logo notei que os boiadeiros já estavam encarnando, para leigos é algo estranho e do capeta, pessoas rodando e gritando, outras com instrumentos fazendo barulhos e fazendo com que os espíritos encarnem nas outras, uma "tremenda confusão", resolvi beber água já que minha cara denunciava todo meu tédio e aí que parei e vi o quanto fui estúpida, a cega estava lá sorrindo mais que qualquer outra pessoa na festa, ela cantava e virava seu rosto sem direção, sabia todas as cantigas e cantava de verdade só lhe faltava mesmo levantar e se por a dançar, peguei minha água e estava voltando ao meu lugar quando percebi que o boiadeiro do dono do centro foi cumprimentá-la e ela mesmo sem saber quem era falou:
-Seu boiadeiro que festa linda
-Está gostando minha menina?
-Não há nada mais lindo que isso.
Não há nada mais lindo que isso? ela não via nada, era nítido sua deficiência visual e mesmo assim conseguia enxergar algo e foi ali que me senti um lixo e ao mesmo tempo privilegiada por ver aquilo, ela não precisa ver aquela festa, as pessoas, a mesa com o forro verde e a roupa linda que cada um portava ela simplesmente cantava e via sua fé, sua grande crença de que tudo aquilo era real e bonito, sim era lindo uma festa linda de todas as formas mas com certeza a festa era muito mais linda para ela que ficou a festa toda cantando e sentindo o quão aquilo lhe fazia bem.
Voltei ao meu lugar PASMA e mais uma vez falando me sentindo um lixo e foi quando mal tendo tempo para respirar vi outra graça sem explicação, uma grávida com um espírito encarnado no seu corpo bebendo e fumando, pelas minhas contas ela deve estar de 4 a 5 meses era perceptível sua gravidez e estava ali como se fosse uma outra pessoa saudável doando seu corpo, ela é saudável mas está grávida e no mínimo deveria estar sentada vendo a festa e não colocando sua gravidez em risco, se um médico estivesse ali chamaria de louca por ter permitido um espírito encarnar em seu corpo e beber e fumar e dançar como estava fazendo.
-Não é perigoso aquela mulher estar grávida fumando e bebendo?
-Não é ela que está fumando e bebendo
-Mas é pro corpo dela que vai não?
-Tudo que ele trás ele leva.
-Será?
-Não tenha dúvidas.
Faz todo sentindo, se ela permitiu que ele viesse e ele veio com certeza é para ajudar e se ele beber ou fumar ele sabe o que faz, é um espírito em verdade e está ali por algum motivo e quer saber? foi lindo ver que não existe limitações para a fé e a crença, desde então já fiquei mais animada e com menos vontade de ir embora, fui pegar um prato de comida pois estava cansada e com sono ainda e foi indo pegar minha comida que vi uma mulher dançando e rodando o tempo todo, sua saia voava no meio de tantos outros e ela de longe mostrava o quanto estava feliz, logo pensei "que espírito é esse que não está com nenhum chapéu nem pano, nada que o identifique", quando me dei por mim percebi que era apenas uma médium dançando e se distraindo, todos ali que a cercavam não olhavam com cara de negação e sim de adoração, adoravam ver alguém se entregando a fé e ela é um bom exemplo disto, estava literalmente dançando de uma forma ridícula onde nem ela coordenava seus passos direito, suas mãos ficavam soltar no ar e volta e meia dava uns pulinhos marotos a cada troca de cantiga, ela cantava muito e em bom tom, algumas músicas errava a letra mas não ligava, estava em seu templo e isso que importava e realmente, era isso que importava, a cega com sua visão, a grávida com sua total segurança e a dançarina com sua espetacular fé.
Comi, ri, e refleti um pouco, as pessoas não vêem certas coisas que estão ao seus olhos, outras enxergam mesmo sem poder e ainda mais do que poderíamos imaginar, existem muitos pré conceitos diante da espiritualidade, a espiritualidade em sim é adversa com suas várias formas de ser vista. Até hoje não entendo o verdadeiro motivo de eu volta e meia me afastar desse paraíso divino que é o candomblé, sei que eu sempre volto, mesmo me afastando sempre volto, e sempre que retorno algo me faz crer que aquilo é real, talvez isso seja algo que costumamos chamar de fé!
(Mayra M.)

lindo seu texto May, adorei de verdade! :)
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